segunda-feira, 14 de maio de 2012

As amantes do verão

A Manuela do blogue Turista Acidental e a Scarlet Red do blogue Le Cirque de Scarlet estão a organizar um passatempo blogueiro para quem se considere amante do verão e aceite responder diariamente, durante o mês de junho, em fotografia ou texto, ao desafio.

Diariamente… é muito forte para mim. Logo eu que não consigo ter dia nem hora certa para aqui estar. Mas a Manuela acabou por me convencer e lá me arrisquei a alinhar. A ver vamos se me aguento.

Até 27 de maio decorre a fase de inscrição de participantes em "As amantes do verão". Resta-nos saber quais vão ser os temas propostos. Em todo o caso, considerando as elevadas temperaturas que correm, bem posso dizer que o verão antecipou a sua graça e está de conluio com a Manuela e com a Scarlet Red nesta sua iniciativa.


Ffffffffffff.....

18h30. 
Chego a casa e o carro diz-me que estão 37º lá fora.
Fffffffffff......
Estou boa para me pôr de molho.

domingo, 13 de maio de 2012

Passeio de domingo (96)


Descuidei-me hoje com o passeio. Entre afazeres domésticos e petiscada de caracóis com os tios que vieram de visita não sobrou tempo. Não seja por isso. Deixo aqui um passeio recente que ficou de reserva para os imprevistos. Onde? Junto às  praias do Ancão e do Garrão.

sábado, 12 de maio de 2012

La cinquantaine



Porque gosto... e porque é este o "lugar" onde me encontro na escala da vida.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O avô


No texto “Testemunha” do livro “Abraço” José Luís Peixoto escreve que os seus avós eram uma lembrança emoldurada.
Assim também é o meu avô. Está emoldurado e pousado sobre a pequena consola que se encontra na entrada do meu quarto. A moldura, de latão dourado e envelhecido, embora comprada há apenas alguns anos, até tem o design art déco da época em que o retrato lhe foi tirado. É a única fotografia que temos do meu avô e a única que eu vi dele. Não sei se na família alguém tem outra. Desta todos os irmãos e irmãs da minha mãe têm uma reprodução que mandámos fazer em tempos. A fotografia original ficou na minha casa. É mais pequena do que as reproduções. É daquelas fotografias que antigamente se coloriam à mão. Assim, sobre a consola da entrada do meu quarto, está o meu avô em traje militar num cenário florido de jardim de estúdio. Apoia a mão direita numa cadeira enquanto a esquerda segura uma espada que, por sua vez, se apoia no chão. A mão que se apoia na espada calça uma luva branca cujo par está entalado no casaco da farda, junto aos bolsos que lhe assentam no peito.
Não conheci o meu avô. Ou se o conheci não tenho lembrança dele que ficasse dos três anos que faziam a minha idade quando ele morreu. Só tenho mesmo esta lembrança emoldurada de um garboso soldado junto a delicadas flores de cores pálidas.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Os últimos minutos do dia

Hoje ainda é de dia. Caminho para poente e já o sol se esconde atrás do horizonte. Hoje caminho sem agasalho. No céu nuvens de algodão refletem ouro. Os melros voam apressados de galho em galho. Por vezes rasando a terra. Ouço-lhes o chamamento. O deles e o de outras aves que não vejo e que não sei reconhecer pelo canto. Na linha de caminho de ferro passa um comboio. Não tarda outro. E outro. E outro ainda. Para cá. Para lá. Cruzaram numa estação próxima. Para cá. Para lá. Caminho e sinto o perfume de uma porção de madressilva que cobre a vedação de uma casa, rente à estrada. Os farrapos de nuvem transfiguram-se e ficam agora rosados. Chego ao fim da rua. Meia volta e caminho para leste. Caminho quando já se acenderam as luzes dos postes de iluminação pública. A cada um que passo, caminho sobre a minha sombra que cresce no asfalto Arrastam-se os últimos minutos do dia. Calaram-se as aves. Cantam os grilos. Por instantes são só eles. Até as rodas dos carros deram descanso à estrada nacional e calaram o ruído de fundo que eu já nem ouvia. Só por breves instantes.

domingo, 6 de maio de 2012

Paseio de domingo (95)


Mais um passeio de domingo agendado para colmatar a minha ausência de hoje. Em dia da mãe, estou de visita aos filhos e não vou nem chegar perto do computador. O domingo até já se habituou a isto e não se importa nada. Hoje respira a tranquilidade que se vive junto ao Almargem, no caminho que leva até à praia do Trafal ou do Loulé Velho.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A mulher que segurava uma caixa de madeira

A mulher estava ali de novo. O João tinha reparado nela pela primeira vez havia talvez umas duas semanas. Estava sentada num banco do jardim que ficava do outro lado da rua, mesmo em frente de casa. Provavelmente aquela mulher já devia frequentar o jardim há mais tempo. Mas só tinham passado duas semanas desde que o João a vira pela primeira vez. Costumava sair apressado para apanhar o autocarro, na paragem que se encontrava a cinquenta metros dali. Como ele, à mesma hora do dia, muitas pessoas aguardavam o autocarro que as levaria para o trabalho. A rua fervilhava de gente, de carros, de buzinas, de fumos… e do lado de lá da estrada, sentada no banco do jardim, estava aquela mulher. Imóvel, olhando fixamente para os prédios que se encontravam na sua frente, no lado da rua por onde João passava todos os dias. A mulher segurava uma pequena caixa. Era uma pequena caixa de madeira. Olhando para aquela mulher o João parecia conhecê-la de algum lugar. Esforçava a memória mas não conseguia perceber de onde. Já na paragem do autocarro, olhava para trás, para o lado o banco do jardim e para aquela mulher e concluía que a conhecia dali. Mais nada.

Ultimamente, também aos fins de semana, quando o João saía de casa, via ali a mulher. Imóvel, sempre sentada no mesmo banco do jardim, a mulher segurava uma pequena caixa de madeira. Por vezes levantava a cabeça e olhava para o lado do prédio onde o João morava. E logo olhava de novo para a caixa.

Havia cinco anos já que o João morava naquele prédio. Tinha-se mudado depois da morte do pai. Ali sempre estava mais próximo do emprego e de alguns amigos com quem partilhava esporadicamente saídas à noite. Tinha sido criado pelo pai e sempre tinha vivido com ele. Quando este morreu não suportou continuar na mesma casa. Vivia só mas gostava daquele lugar. O jardim, ali tão próximo, levava até ele os sons das brincadeiras das crianças que todos os dias usavam os baloiços e o canto das aves, logo pela manhã. A vida corria-lhe sem sobressaltos mas desde que reparara naquela mulher sentia-se inquieto. Não conseguia perceber porque razão isso sucedia mas dava por si a espreitar com certa frequência pela janela da sala, procurando com o olhar aquele banco de jardim onde a mulher costumava estar sentada.

Numa tarde de sábado, estava nas traseiras ocupado na rega das plantas que tinha na marquise, quando ouviu a sirene da ambulância. Terminou a sua tarefa e dirigiu-se à janela da sala como tantas vezes fazia. Olhando para o lado do jardim percebeu que os socorristas se afadigavam junto ao banco onde a mulher costumava estar sentada. Pouco depois a ambulância retomava a sua marcha e alguns transeuntes que assistiam ao socorro dispersaram. Parado, à janela, o João continuava a olhar para o banco do jardim, agora vazio. A fim de uns instantes avistou junto ao banco, quase por baixo dele, um pequeno volume. Esforçou o olhar e percebeu que devia ser a caixa de madeira que aquela mulher costumava segurar. Num impulso saiu de casa, atravessou a estrada e correu para aquele banco. Pegou na caixa. Sentou-se, tal qual aquela mulher costumava estar sentada. Sentia uma agitação no peito enquanto uma força maior lhe movia os dedos das mãos que, como autómatos, abriram a caixa de madeira. Lá dentro o João encontrou apenas uma velha fotografia. Trémulo pegou-lhe e viu-se, menino, ao colo de uma desconhecida.