sábado, 10 de setembro de 2011

Recomeço



Sacudo a areia. Lavo as toalhas de praia e o bikini. Arrumo o guarda-sol e o saco que me saiu em brinde numa revista feminina. Verifico a marcação de página nos livros cuja leitura ficou por terminar. O sol poente marca o fim das férias e dentro do peito cresce-me um novelo de angústias. Sobram pontas do tanto que ficou por fazer. Desfiam-se pedaços de tarefas projetadas que não chegaram a ser. Sobra-me agora o regresso ao trabalho, que, ali… ao fundo do fim de semana, já espreita com ar de quem não deixa dúvidas sobre quem manda agora. Na garganta, já aperta o nó do inevitável recomeço.




sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Olhar de verão (9)



No meu último dia de férias de verão, descobri as "Bolas de Berlim do Carrinho do Ti Jaquim"...

Pronome

A avó, enxuta, de fato de banho preto descansa elegantemente deitada na toalha. As irmãs e respetivos maridos cuidam dos filhos, três de uma, dois de outra. Pais, filhos e netos desfrutam a tarde de praia. São todos gente bonita. Gente bem. A filha mais velha de uma das irmãs enceta um berreiro consequente de uma bulha com o irmão mais novo. Queixa-se com dor na mão. Não vi, mas deve ter levado com a pá de plástico nos dedos. A mãe que alimenta o terceiro filho, bebé, diz-lhe: “Luisa, a mãe já ouviu, agora vá chorar para além.” A avó chama-a a si: “Venha cá, Luisa” . Passada a crise, a pequena Luisa, que não tem mais de seis anos, convida o pai para um banho de mar: “Venha comigo, pai”.


Há tanto tempo que não via uma família sem o pronome pessoal tu.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Escadas



Quem não escolheria estas escadas em vez das aborrecidas escadas rolantes?



quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Setembro

Acabaram as sunset parties. Foram embora os D.J.s. Ficou a praia e a rebentação das ondas. Ficou o grito da gaivota. Ficou gente menos apressada e ficou menos gente. Ficou à míngua o negócio das bolas de Berlim. E o dos vestidos de praia. E o das malas fazdecontaquesãolouisvuitton.


Cresceu a praia e não importa que vão minguando os dias. Para mim, ainda chegam.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Olhar de verão (8)




Tapem os ouvidos... porque se têm o azar de passar por aqui ao mesmo tempo que uma amiga minha o faz ... ainda ficam surdos à custa do grito que ela vai dar...

Rosa vivo

Não tarda, finda o verão e eu não chego a pintar as unhas de rosa vivo.


As unhas pintadas de rosa vivo são algo deveras imprescindível neste verão 2011. E de preferência com verniz de gel. À minha volta não há mão feminina que não se apresente de unhas rosa vivo. São as colegas do trabalho, as amigas, as primas, as desconhecidas da praia… tudo com as pontas dos dedos devidamente arranjadas e de rosa vivo.


Só eu estou com as unhas a destoar. Ainda não as pintei com verniz de gel rosa vivo. Nem com nenhum verniz.


Não sou mesmo ninguém.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Olhar de verão (7)



Em busca de alimento...

Crónicas do Rochedo




Este verão participei no desafio do Carlos Barbosa de Oliveira e juntei as minhas memórias de praia às suas e às de outros bloggers que também inscreveram a praia das suas vidas na lista do Crónicas do Rochedo. Recebi por isso esta lembrança que gravo aqui na minha esquina.

Aproveito para assinalar que no CR se festejam hoje quatro anos de blogue. Parabéns para lá!

Destino

Durante aqueles quatro dias manteve-se queda e silenciosa no pequeno saco de plástico com fecho éclair, encostada a um dos cantos do necéssaire vermelho. Fizeram-lhe companhia a bisnaga do creme e o pincel da barba. O ar era fresco e por vezes enchia-se de humidade que caía com o vapor do chuveiro. Cheirava a gel duche de flor de laranjeira e a shampoo de alperce. Não era mau. Mas quatro dias ali encostada… só tendo contado com uma atividade… começou a ficar impaciente. Os movimentos regulares dos acessórios que preenchiam o restante espaço da bolsa de toilette acabaram por lhe fazer saltar a tampa protetora das lâminas. Sentiu-se um pouco mais solta, cheia de apetite. Foi então que a mão de aproximou do necéssaire. Ia agarrá-lo para proceder à sua arrumação e guardá-lo no saco de viagem, já pronto a seguir para carro. Quis o destino que o polegar se encostasse com força à sua cabeça, permitindo-lhe afincar com regozijo a lâmina afiada naquela tenra carne. Ela soltou um pequeno grito, colocou o dedo sob a água corrente da torneira e enquanto o lavatório se tingia de rubro, a gilette, esboçando um sorriso malvado, encostava-se saciada e cheia de gozo à bisnaga do creme de barbear.