quinta-feira, 29 de março de 2018

Reencontros


Não a via há muito tempo. Anos. Reconhecemo-nos em simultâneo, ela do lado de dentro do balcão, eu na curta fila de espera. Está muito diferente, penso eu. Está muito diferente, deve ela pensar. Ela, que sempre teve o cabelo curto e castanho, está loira de cabelo comprido. Usa um penteado anacrónico, de risco ao meio com duas pequenas tranças a cercear-lhe a cabeça sobre o restante cabelo solto. Olho-a e sinto uma íntima satisfação por ter deixado de pintar o meu. Chega a minha vez. É ela quem me atende. Pergunta-me se já tenho netos. Não. Ainda não, sorrio. Pergunta-me pelo Leonel. Equivoca-se nos nomes. Não tenho nenhum Leonel na minha vida, digo-lhe rindo. Mas não me atrevo a perguntar-lhe pelos seus. Não tenho memória da sua descendência e não quero dar parte de fraca.

11 comentários:

Victor Barão disse...

Falando por mim, às vezes nem sequer recordo a identidade da pessoa com quem reencontradamente estou falando, sequência de entre o que tão pouco gosto de dar "parte de fraco", salvo se torne embaraçosamente indispensável!

Abraço e Feliz Páscoa

bea disse...

O que me acontece agora com frequência é ouvir amigos a manifestarem-se acerca de conhecidos comuns como estando muito velhos. Falam como se eles mesmos não tenham mudado e se mantenham jovens. Mas a velhice, atarde-se ou não, surge. Fatal e inexorável. É melhor habituarmo-nos.

Victor Barão disse...

Não pretendo em absoluto monopolizar este espaço de comentários, mas até por ser esta a mais recente publicação da Luísa e por isso mais viável do meu comentário ser lido pela Luísa e por quem mais seja, com leve edição, vou repetir aqui o comentário que fiz na anterior publicação, que é:

_ Sabendo eu que não há desperdícios neste À Esquina da Tecla; sequência de que até por prazenteiro é-me muito fácil percorrer (ver e ler) o que aqui se publica, pelo que já estive a ver e ler muito do que fui a seu tempo perdendo nos últimos tempos (meses). Isto para, sem comentar muitas das excelentes transactas publicações, em alguns casos a tocar a genialidade, me limitar a dizer:

Obrigado à Luisa por estar desse lado, desta magnificamente inspiradora forma

Vane M. disse...

Interessante... eu tenho memória fraca para a história de pessoas com as quais não convivo, eu também não me arriscaria a comentários mais ousados, rsrsrs. Abraços!

Larissa Santos disse...

Muito bom! :))

O Brincando com as palavras DESEJA-VOS: UMA SANTA E FELIZ PÁSCOA, EXTENSIVO AOS VOSSOS FAMILIARES E AMIGOS.
.
Bjos com carinho e estima.

mz disse...

Na dúvida, o melhor é não entrar na esfera íntima!

Beijinhos.

redonda disse...

Como muitas vezes não reconheço caras e não lembro nomes parece-me uma boa ideia

papoila disse...

Eu não me importo nada de "dar parte fraca" se o fizerem comigo não fico nada aborrecida e acho natural a pessoa esquecer-se portanto parto do principio que os outros também compreenderão o meu esquecimento :))) até dá para mais tema de conversa :)))
Estou a deixar o cabelo ficar branco, está a ser muito demorado e feio eheheh, enfim são fases.
Feliz Páscoa Luisa.

luisa disse...

Victor,
Neste caso não foi falta de reconhecer a pessoa, embora também não me recordasse logo do nome dela. Para isso tive a preciosa ajuda do cartão de identificação que ela trazia ao peito. Já sobre filhos e assim… :)
Muito obrigada, Victor, pelas suas sempre gentis palavras.

Bea,
Olhar para os nossos contemporâneos e perceber como envelheceram devia servir-nos como espelho. Mas os espelhos aqui de casa também têm sido reveladores para mim. Não tenho ilusões. :)

Vane,
Estas falhas da memória constrangem-me. Chegam a doer-me. Mas fazer o quê? :)

Larissa,
Obrigada e votos de uma Páscoa Feliz para si também . :)

Mz,
Tenta-se disfarçar… :)

Gábi,
Eu até reconheço as caras, o problema é situá-las e lembrar-me dos nomes correspondentes. :)

Papoila,
És capaz de ter razão em assumir que não te lembras da pessoa. Pelo menos assim acabas por obter a informação que te falta. :)
Eu deixei de pintar os cabelos há uma ano. Nessa ocasião, optei por cortá-los muito curtos e como a cor que eu usava até era muito semelhante à minha base, não senti muita dificuldade na transição. Agora já os deixei crescer mais, estou grisalha e muito satisfeita com a minha decisão. Nunca mais me aborreci com as raízes. :))

LuisY disse...

Luisa

Tive uma colega de emprego, que dizia com sabedoria, que quase todas as mulheres portuguesas passam pelo menos uma vez na vida a experiência de serem loiras. Talvez a mudança da cor de cabelo as faça acreditar numa alteração qualquer radical nas suas vidas. Sei lá, é daquelas coisas da psicologia feminina que nunca cheguei a entender inteiramente, mas nestas nossas terras onde todas tem cabelos e olhos castanhos o loiro exerce o grande fascínio, é como sair do cabeleireiro, metaformoseada em Brigitte Bardot.

Parece ser o caso da protagonista desta pequena história.

Depois de certa idade, passaram já demasiadas pessoas na nossa vida e temos dificuldade em memorizar os nomes, os sítios de onde conhecemos as pessoas e se são ainda casadas ou não e por aí fora. Nesses momentos sentimos quase que um medo do vazio, que representa a falta de memória.

Bjos e parabéns pelo pequeno texto

luisa disse...

LuisY,
Bem... Eu fui loira em criança e jovem. Depois o cabelo foi escurecendo, embora correspondesse ao designado tom "loiro escuro". A dada altura o cabeleireiro convenceu-me a pintá-lo embora nunca tenha usado tons muito diferentes do meu natural.
O que parece ser comum é as mulheres tornarem-se loiras para disfarçar os cabelos branco. No entanto, atualmente muitas optam por assumi-los. Eu estou precisamente a fazer isso. A memória, ou falta dela, também é uma coisa que dificilmente vou poder disfarçar. :))