quinta-feira, 5 de maio de 2016

Diário

O que tenho para contar deste caminho? Apenas que hoje cheira à chuva que caiu durante dia e que ainda não secou nas poças das bermas; e que o verdete das paredes velhas está mais vívido; e que elas clamam por cal para rejuvenescer; e que as iniciais dos donos dos prédios estão pintadas de forma tosca nos marcos que os assinalam; e que os cães ladram, como sempre, à minha passagem; e que, nos quintais, as trombeteiras estão de novo em flor exalando o seu forte perfume; e que os pampilhos já estão a fechar-se para a noite que chega; e que há um grilo ruidoso ali à frente; e que soa o alarme da cancela na passagem de nível; e que ao longe o anúncio luminosos do café muda de cor de forma intermitente; e que já se ouve o estranho chamamento do noitibó; e que os candeeiros da rua se acendem lentamente; e que no céu de chumbo se desenha uma invulgar nuvem castanha; e que me surpreendo com o som da casca do caracol que esmago sem me dar conta; e que a mulher que se cruza comigo me diz boa noite; e que alguns carros passam velozes no asfalto; e que sopra um vento leve; e que já me escorrem pequenas gotas de suor pelo peito; e que regresso finalmente a casa; e que, na verdade, nada tenho para contar.

19 comentários:

  1. Imagina se tivesses algo para contar! Excelente relato sobre as coisas que fazem a vida fazer sentido e que muitas vezes não se dá importância.
    Fiquei a pensar no que será "pampilho" penso que te referes a uma planta, ou flor, mas só conheço o tradicional doce de Santarém com o mesmo nome.

    Beijinho Luísa, tem um bom fim de semana.

    ResponderEliminar
  2. Luísa, a normalidade dos dias feita rotina também é boa. :)

    ResponderEliminar
  3. tudo fala! até o "estranho chamamento do noitibó"...

    importante é saber ler...
    (ou escutar)

    ResponderEliminar
  4. Bolas, para quem nada tem que contar, contou muita coisa:)

    ResponderEliminar
  5. Muito bom....e não é que visionei tudo como se fossem as bonitas fotografias que a luisa costuma partilhar :)

    ResponderEliminar
  6. Que bem, Luisa!
    Adoro a tua escrita é muito directa e rápida, não te esqueceste de nada e lá fui dando passos como se estivesse a caminhar ao teu lado.
    Bijinhos

    ResponderEliminar

  7. um passeio muito presente Luísa!
    bom fim de semana
    Angela

    ResponderEliminar
  8. Uma bela passagem para a noite, luisa... daquelas que nenhuma fotografia conseguiria transmitir.

    ResponderEliminar
  9. A mim também me cheira a chuva, mas só porque está a cair tanto que já quase me chega ao nariz!

    ResponderEliminar
  10. Quem anda com os sentidos apurados, tem sempre algo para contar...

    ResponderEliminar
  11. Luisa, por aqui onde raramente chove, hoje tem chovido o suficiente para deixar poças nos caminhos mas não chega para formar regatos. Mesmo sem fotos contaste coisas que nos encantaram. Tem um bom domingo que o sábado está a acabar, com chuva ou sem ela.

    ResponderEliminar
  12. ~~~
    Um certo desencanto pelo ambiente molhado, não atrapalhou
    a prosa simpática dos sentires simples do fim do dia.

    Não choveu na altura própria...

    Bom domingo, Luisa.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
  13. Bom dia, Luisa.
    Quando não se tem nada para contar conta-se tanto =)
    bj amg

    ResponderEliminar
  14. Que fôlego, Luísa, para contar tudo de sopetão. Deduzo que andava a caminhar, não?

    Uma boa semana :)

    ResponderEliminar
  15. Há sempre coisas para contar, como bem o provas... :)

    ResponderEliminar
  16. Que grande quadro para quem não tem nada para contar.

    E a chuva continua trazendo mais verdete e o som propagar-se com mais clareza. Eu oiço muito melhor o comboio em dias de chuva, por isso, na minha mente, associam-se os dois.

    Coisas da chuva...

    ResponderEliminar