segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Beijinhos de amor

Quem não sabe não nota. Mas eu sei que aquela pequena cicatriz está ali e vejo-a sempre que me olho ao espelho. Está ali no lado direito do lábio inferior. Está ali onde noto uma pequena saliência que ficou desde que cortei o lábio no canto da mesa de cabeceira. A bem dizer, já só a consigo ver quando estico a boca. Então percebo o leve traço esbranquiçado a marcar a diferença no carmim do lábio. Já tem uns 45 anos ou mais, esta cicatriz. Não consigo já situar o ano exato em que caí da cama e cortei o lábio no canto da mesa de cabeceira. Mas vejo com perfeição o quarto em que dormia quando isso aconteceu. Recordo nitidamente a posição da cama, de frente para a janela, e o colorido dos ladrilhos hidráulicos que atapetavam o quarto. Na verdade não me lembro da queda, nem da dor. Só me lembro de acordar de manhã com o sabor enjoativo do sangue na boca e o lábio inchado que assustou a minha mãe. Por isso me levou à vila, à farmácia. Fomos de camioneta. Na verdade não me lembro da viagem de ida. Só da viagem de volta. E de como vinha enjoada na camioneta. E de como fiquei aliviada quando chegou a nossa paragem e desci pela mão da minha mãe e caminhámos até casa sob o sol alto do meio-dia. Lembro-me que vestia um casaquinho de malha amarelo claro. Era um casaquinho de malha tricotado pela minha mãe e tenho a certeza que ela chamava ao ponto daquela malha “beijinhos de amor”.

9 comentários:

redonda disse...

Parece uma recordação preciosa (não me lembro agora de ter conseguido guardar algo com tantos pormenores e cores de quando era muito pequena).

Catarina disse...

Com esse título, claro que me conduziste para outros palpites! Cicatriz causada por um beijinho de amor dado por um apaixonado mais impetuoso! : )

Teté disse...

Há dias que se recordam assim com muitos pormenores, quando acontece algo insólito. Mas, em contrapartida, chegamos à conclusão que a maior parte dos dias da nossa vida são apenas recordações vagas e distantes, consideradas como um todo representando uma época, sem nada de muito memorável, para além de um vestido que usávamos, do nosso brinquedo predileto, da caixa de lápis de cores da escola... :)

Beijocas!

ps - tenho uma cicatriz dessas num dedo da mão, devido a uma grande burrada minha, sempre que reparo também me lembro da história... :D

Vítor Fernandes disse...

Há memórias tão giras mesmo que algumas encerrem algumas cenas mais dolorosas.

Rafeiro Perfumado disse...

Pelos vistos na alma ficou uma boa cicatriz. Beijoca!

Gi disse...

A minha mãe também tricotava... Eu tentei, cheguei a fazer um casaco para mim! Que nostalgia...

mfc disse...

Recordações bonitas de um momento desagradável!

luisa disse...

Gábi,
As memórias são traiçoeiras e vão se refazendo ao longo da vida fruto de recordações próprias ou que interiorizamos de tantas vezes nos serem contadas. Da minha infância tenho algumas que me surgem como flashes, imagens coloridas como fotografias que imortalizam momentos. Esta é uma delas.

Catarina,
Mas não... o canto da mesa de cabeceira não tem nada de romântico :))

Teté,
Na verdade, mesmo no meio de recordações vagas, acontece surgirem pormenores muito vivos. Tanto que nos parece que foi ontem.

Vitor,
Provavelmente são os eventos "dolorosos" que melhor permitem fixar a memória em determinadas histórias e pormenores das nossas vidas.

Rafeiro,
E ficou... porque o tal casaquinho era bem fofinho :))

Gi,
Também eu já fui uma menina prendada que fazia tricot e croché.. agora sou uma "menina" preguiçosa e com pouca paciência para concluir trabalhos manuais...

mfc,
Contradições da mente :))

SofiAlgarvia disse...

Que recordações tão bonitas, Luísa!
Contas a história com tanta emoção que até consegui "vêr" a menina que está aí no canto superior direito a sair da camioneta, d mão dada com a Mãe, com um casaquinho liiindo como só as Mães o sabem tricotar!
Bjns