terça-feira, 18 de junho de 2013

Uma palavra mal dita

Saiu-me aquela palavra boca fora. Quase nem dei por ela se estar a formar. Quando percebi já se projetava no ar, retinindo e passando sem entraves pelo bocal do telefone. Chegou no mesmo instante ao ouvido destinatário. Estava dita. Nada mais havia a fazer. Acabada a conversa, pousado o auscultador, pairava à minha volta a sua sombra. A sombra das palavras mal ditas entranha-se no pensamento e gira como um remoinho imparável. Roda e roda e continua a rodar. Pode até parar por alguns instantes mas logo volta a zumbir, como uma mosca que fica fechada no interior de uma pequena sala e que bate incessantemente contra os vidros da janela, procurando a libertação. Aquela palavra está assim. Girando e zumbindo incessantemente, atirando-se, furiosa, contra as paredes do meu pensamento. Procura escapar-se de mim mas não há uma fresta sequer que lhe conceda passagem. Há de infernizar-me dias a fio até cair inanimada e morrer de exaustão.  Ainda assim, depois disso, temo que volte, como fantasma, assombrando-me as ideias. 

10 comentários:

Graça Sampaio disse...

Que texto tão bem conseguido, Luísa!

Mas vê se consegues entreabrir uma janela para a malvada deixar de zunir na tua cabeça e sair livre para o espaço...

Beijinhos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Os chineses dizem que há três coisas que nunca voltam atrás: a seta lançada, a palavra proferida e a oportunidade perdida. Por isso, o melhor é não pensar muito nisso e seguir o conselho da Graça

Rui Pascoal disse...

Mal(dita)... boa escrita.
:)



Rosa Carioca disse...

Pense assim: palavras... leva-as o vento!
Deixe-a ir...

Catarina disse...

O que não tem remédio, remediado está.
É pr’a esquecer! : )

Pedro Coimbra disse...

O Carlos imitou-me por antecipação.
Era a sabedoria chinesa que eu ia citar.
Já está dito :(

maria disse...

Sei bem o que isso é, mas depois de dita é esperar que passe...já não há nada a fazer :(

Beijinho :)

Rosa dos Ventos disse...

Mal dita ou maldita?
Maldita palavra que te pôs assim!
Deixa lá, "palavras leva-as o vento" e, como a ventania tem sido tanta, a tal palavra já está longe!

Abraço

papoila disse...

Foi sentida?!?
Foi justa?
Foi as duas coisas ,foi só uma...
Agora é só actuar de acordo com o coração.
xx

Teté disse...

Ora, e eu que julgava que o provérbio chinês falava em pedra lançada e não em seta? Também foi o que me veio à ideia, ao ler o teu texto... :)

Já por duas vezes desliguei o telefone na cara de duas pessoas. Que começaram por me dar uma descasca por determinada "falha" minha, eu acatei, mas depois a irritação levou-as a excederem-se nas palavras e acusações que se seguiram, cada vez mais graves, como bola de neve. Nem disse mais nada. Desliguei. Fiquei incomodada, mas não precisava de mais. Mas elas também ficaram, até porque deu para perceberem que já estavam a ultrapassar todos os limites do razoável. Uma ou duas palavras mais agressivas e ferozes ainda se aceitam, agora um chorrilho delas, ainda por cima injustas? No way!

Ambas as histórias já se passaram há muitos anos, mas tenho dormido bem com isso e não me arrependi minimamente! Mas se me tivesse arrependido, não me custava nada pedir desculpa... :)

Beijocas!