quinta-feira, 8 de maio de 2014

Como sempre

Sempre fora assim. Em anos que viviam naquela casa, era sempre ele que saía de manhã para ir comprar pão. Levantava-se antes de todos os outros, fazia a barba, tomava banho, vestia-se e saía de casa rumo à padaria que se encontrava a cerca de 50 metros, numa rua perpendicular aquela onde moravam. Era uma distância curta e já sabia de cor até cada pedra da calçada. Sabia de cor as caras com que se cruzava. Sabia de cor as palavras que trocaria na compra do pão. Depois regressava, sempre pelo mesmo caminho, sempre com o mesmo ritmo, sempre cumprimentado os mesmos vizinhos. De volta à casa já os outros estavam à sua espera, o café feito, o leite quente, a mesa posta.

Sempre fora assim. Por vezes inquietava-se com aquele amanhecer totalmente formatado. Pensava que talvez gostasse de ficar ele em casa passando o café, dispondo as chávenas na mesa, esperando pela chegada do pão quente. Mas, como sempre, acabava por sair todas as manhãs para comprar o pão.

Dia após dia ia interiorizando uma vontade de mudança. Pensava: amanhã não saio para comprar pão. Um dos outros que o faça. Mas chegada a manhã dava por ele repetindo os mesmos gestos, os mesmos passos, as mesmas palavras de cumprimentos aos vizinhos, a mesma padaria no seu destino.

Na mudança do mês entendeu que tomaria uma atitude. Ao primeiro dia deixou-se ficar na cama por mais vinte minutos. Levantou-se, decidido, tentando afastar de si uma leve angústia e tratou de se despachar. Quando os outros já se atarefavam na cozinha, fervendo a água para o café, aquecendo o leite, pondo a mesa, dirigiu-se a eles com o ar mais seguro que conseguiu mostrar e disse: vou buscar o pão.

15 comentários:

Majo disse...

~
~ Meu Deus!

~ Será que a rotina é capaz de fazer tal comportamento doentio?

~ Interessante para meditar, Luísa!

Graça Sampaio disse...

Tinha de se dar! Acabamos por fazer sempre a mesma coisa...

História interessante, Luísa.

Beijinhos

redonda disse...

Eu pensei que ele ia dizer a um dos outros para ir buscar o pão :)

Teté disse...

Há hábitos difíceis de mudar... :)

Beijocas

Catarina disse...

Hábitos demasiados enraízados. Nem o pão saberia tão bem se fosse comprado por outra pessoa mesmo que da mesma família : )


Pedro Coimbra disse...

Fez-me recordar o meu falecido padrinho e as nossas férias na Figueira
BFDS

Rui Espírito Santo disse...

Hábitos que adquirem a forma de "vício" ! O próprio já não consegue passar sem eles ! Creio que não será assim tão raro como o que possa parecer !

Bfds, Luisa ! :))
.

Rosa dos Ventos disse...

Acabei por me rir!
É que não contava com este final! :)

Abraço

papoila disse...

Engraçado! Eu acho que nós acabamos sempre por fazer o que nos é menos difícil, por enquanto é-lhe mais fácil ir do que dizer aos outros que não vai...Talvez um dia consiga!
xx

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Procuro não cair na rotina, mas por vezes é difícil...
Bom FDS

Jorge disse...

Olá, Luisa!
Eu também fiz isso mesmo durante anos. A rotina mecaniza-nos e automatiza-nos, é difícil contrariá-la.
Grato pelas visitas,
J

Rui Pascoal disse...

E como ele não estava certo... ainda lhe deram troco.
:)

AFRODITE disse...


Dizem que a rotina até pode matar... (matar uma pessoa de tédio, certamente! lol)
Felizmente as minhas rotinas são muito variadas... :))


Beijinhos enfarinhados
(^^)

© Piedade Araújo Sol disse...

que interessante!

o que nós fazemos e nem nos apercebemos.

parabéns por este texto tão real e bonito.

:)

Ana disse...

ahah:) sei bem como é;)