quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Devagar

Mais uma vez, Silvina saiu tarde do trabalho. Regressou a casa pelo caminho que habitualmente percorria, pensando que algo se estava a passar com ela. Se entrava mais cedo ao serviço e saía cada vez mais tarde, porque razão não estava a dar conta do trabalho que tinha para fazer? O pior era que em casa lhe sucedia o mesmo. Não conseguia tratar de tudo o que tinha por resolver. O que a incomodava era ter a perfeita noção de que antigamente conseguia fazer muito mais. Agora sentia-se lenta. Lenta a pensar. Lenta a agir. Desesperava-se por não ter mais aquele desembaraço que lhe era característico. Lembrava-se de como costumava ser sempre a primeira a concluir os trabalhos da escola; de como arrumava a casa em pouco tempo; de como era ágil em tudo o que fazia.

Silvina caminhava devagar questionando-se sobre as razões da mudança que sentia nela. Não era assim tão velha. Não se sentia doente. Até andava bem-disposta. Não percebia. Quase a chegar a casa pensou que talvez devesse ir ao médico e pedir para fazer uns exames de diagnóstico. Sim. Era isso que iria fazer. Ao menos para ficar descansada.

Tinha acabado de tomar a decisão quando chegou à porta do prédio. Abriu-a, entrou e chamou o elevador. Lá dentro, olhando-se no espelho que forrava o fundo do cubículo, viu refletida a imagem de um caracol.

19 comentários:

  1. A Silvina está a ter alucinações! : )

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  2. A imagem do caracol fez-me rir. A Silvina não está doente. São os anos que começam a ficar pesados. Falo por experiência própria.
    Gostei de ler.

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  3. Qual idade qual quê...!!
    Eu estava a ler e pensei... "tal e qual eu"... com uma diferença: eu sempre me achei mais lenta do que aquilo que eu queria ser... mas deve ser uma questão de perspectiva... o meu cérebro é que é rápido demais para as minhas mãos e restante corpo! :)))


    Beijinhos de ir e voltar... ao teu ritmo
    (^^)

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  4. Sou pouco de olhar para o espelho mas, quando vou "à praia do Pedrógão" e subo até ao 4º andar no elevador confronto-me com essa realidade. Se subisse a pé pelas escadas era mais lento...
    :)

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  5. Gostei do desenlace kafkiano. O triste fado da pobre Silvina que vive alienada pelo excesso de trabalho, pelo dever e outras obrigações domésticas e que deixou de se reconhecer. Uma metamorfose que nos faz pensar nas consequências da vida moderna e como nos vamos tornando estranhos para nós mesmos.

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  6. Texto kafkiano, ironia digna do Mário Henrique Leiria.

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  7. «Abriu-a, entrou e chamou o elevador. Lá dentro, olhando-se no espelho que forrava o fundo do cubículo, viu refletida a imagem de um caracol.»

    Silvina está voltada para dentro.

    :)

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  8. ~
    ~ Por vezes, é uma questão de equilíbrio alimentar.
    ~ As nossas necessidades nutritivas variam com a idade.
    ~ Muitos médicos não são sensíveis ao problema, outros receitam
    um complexo vitamínico químico...
    ~ Na minha opinião, uma consulta a um nutricionista é fundamental.
    ~ ~ ~

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  9. Deliciosos, Luísa, estes teus textos com estes desfechos!

    ( ai que quer-me cá parecer que anda por aqui também um primo desse caracol!)

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  10. Vixi... sou eu! hahaha Quantas vezes já passei poor isso. Tomara que não resseque sozinha dentro da própria casca. Um abraço!

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  11. Li uma vez que nós somos pelo menos 4 !!!
    Aquilo que pensamos ser ; aquilo que "pensamos" que os outros pensam que somos ; e aquilo que "realmente" os outros pensam que somos !
    Qual das três "visões estará certa ? ...
    A verdade é que somos aquilo que "realmente" somos ! ... e o que será que "realmente" somos ? ... rsrsrs

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  12. caracol sou eu - e não me queixo.

    declaradamente, a Silvina é uma lesma...

    bj

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  13. Por vezes no espelho não reconheço aquela que fui autrora.
    De elevador não, sempre a andar.


    Beijinho Luisa e um bom domingo.

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  14. O texto está com imensa imaginação, para além de muito bem escrito, morfológica e sintaticamente.
    Há muitas Silvinas, por aí, infelizmente, arrastando-se, sem motivos, aparentemente reais, mas eles existem, decerto.

    Bom domingo, Luísa!

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  15. A D O R E I!
    Ponto final.
    É a síntese perfeita do que entendo ser função do humor. Branco, negro ou às cores. Lacónico, com pitadas a gosto de perversidade.
    Li e aguçou-me a vontade de (re)ler o Allan Poe.
    Parabéns, amiga!

    ...
    (não, enganou-se: não seguiu os conselhos da mãe; haveria de casar sim, mas anos mais tarde. Com a minha tia para que eu tivesse o prazer de o ter como meu tio...)

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  16. Mas que ideia parva essa de colocar espelhos nos elevadores?!
    eu penso sempre: será que está alguém do outro lado a ver quem entra e o que faz? e que só é espelho de um lado?
    mas do outro lado só pode estar a parede, não é?
    então tento resistir à tentação de ajeitar o cabelo! e fico feliz quando saio de lá de dentro

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