quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O estranho caso de Tagik, o berbere contador de histórias



Entretanto, o pássaro azul, de papo cheio, saltitava de prateleira em prateleira, por uma das galerias que se desenhava frente ao rei e este, deixando o velho cego a falar sozinho no vestíbulo, resolveu seguir o percurso que a ave empreendera, confiante que ela haveria de o conduzir a uma saída. Um pássaro, pensava o rei, não fazia sentido senão livre, voando a céu aberto.  Nesta certeza, acompanhou a ave que seguia por intermináveis corredores de estantes, repletas de livros, umas iguais às outras, ao ponto do rei achar que caminhava em círculo, passando uma e outra vez pelo mesmo local. O rei já estava em perfeito desespero quando o pássaro pousou numa prateleira, junto a um livro de grandes dimensões, com capa de couro velho e título gravado a ouro. “O homem das quatro vidas” leu o rei, enquanto o pássaro vocalizava repetidamente “tagik, tgik, tagik, tgit, tagik”. O rei retirou o livro da estante, abriu-o sobre uma mesa de leitura que se encontrava à sua direita e ao virar a primeira página…

Fascículo 6

E mais aqui.

E, a não perder, o final da história (ou o principio de mil e uma outras) aqui.

Escrevi preto no branco


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Cata-ventos

Foi uma das novas rotundas, entre as muitas desenhadas este ano na estrada principal, que desvendou a pequena horta de citrinos. Está do lado direito da estrada e quando ali passo pela manhã, enquanto rodo o volante para a esquerda, perfazendo o necessário semi-círculo junto ao redondel, olho invariavelmente para lá. Até nem foram as laranjeiras, viçosas, por sinal, que me espicaçaram a vista. E nem tão pouco foram uns quantos girassóis em que hoje reparei. Não. O que todos os dias me encanta são os cata-ventos. Estão acoplados à cerca que separa a horta da estrada e são tantos que a sua conta é impossível de fazer no tempo breve da minha passagem. São cata-ventos muito rudimentares, feitos de cana, mas cada um enfeitado com uma forma geométrica de cor diferente. A horta parece-me assim um jardim misterioso, ladeado de engenhos capazes de atrair ventos e outras energias, que o dono, um jardineiro sonhador, aproveita para adubar as árvores e a imaginação das criaturas que, a caminho do trabalho, precisam, em cada dia, de uma pequena dose de evasão.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dança


A sul do vento
No balanço das nuvens
As aves dançam

Desenho

Desenhou-se uma e outra vez. Desenhou-se a lápis, a tinta, a preto, a cores. Tentou ainda o pincel. De nada serviu. Nunca se reconheceu. Pensou então em inventar-se.

domingo, 20 de novembro de 2016

sábado, 19 de novembro de 2016

Sábado

Ao fim deste sábado, o que resta entranhado em mim e pela casa é um cheiro doce. Sinto um toque de anis, um sopro de canela e açúcar trigueiro a fundir-se na fruta. Ao fim deste sábado, sobra um doce de abóbora a arrefecer na panela e frascos alinhados à sua espera. Sobra também uma moleza nas pernas e uma vontade irresistível de aceitar quanto antes o convite de um livro que, ali, pousado na mesa de cabeceira, está insistentemente a chamar-me para a cama.

terça-feira, 15 de novembro de 2016