Havia já muitos anos que estava ali, apertado, na estante. A
sua história era pequena. Não tinha mais que cinquenta páginas, contando
palavras e desenhos. Alguns desenhos estavam pintados de cores garridas mas nem
por isso achava que eram mais bonitos que os desenhos a preto. Esses combinavam
com a cor das palavras. Tinta preta sobre fundo branco. Ou sobre fundo que já
fora branco. Ao fim de tantos anos as suas folhas acabaram por tomar um tom
amarelo, quase castanho nos cantos exteriores. Mas isso não importava. Tanto
mais que já ninguém o folheava. As palavras queixavam-se de não serem lidas. A
última página ouvia os suspiros da primeira e as do meio chegavam a soluçar de
tristeza. Quando algum vizinho era retirado da estante, mudava um pouco de
posição. Inclinava-se para ora para a esquerda, ora para a direita e
aproveitava para desentorpecer as folhas. Havia já muitos anos que não chegava
a sua vez de sair da estante. Não lhe adiantava de muito queixar-se aos maiores
que costumavam empurrá-lo de um lado para o outro. Não queriam saber. O que
lhes importava o sentimento de tão pequena e insignificante criatura? Eles sim,
eram interessantes. Serviam para tirar dúvidas e estavam constantemente a ser
utilizados. E o pequeno livro, o da pequena história escrita e desenhada em
pouco mais de cinquenta páginas percebeu que tinha de fazer alguma coisa. Não
podia mais conter o desespero das suas palavras encurraladas. Precisava de se
mudar para onde o voltassem a ler. Esperou, atento, pela primeira oportunidade
e, num dia 23 de abril, aproveitando que a estante ia ficando mais vazia com a
saída de alguns dos seus vizinhos importantes, respirou fundo, abriu-se ao
meio, sacudiu as folhas e levantou voo, em busca de leitor.
