Não me lembro de todos os professores que tive mas lembro-me de alguns com maior ou menor força mnemónica. De alguns apenas me consigo lembrar dos seus nomes e figuras, por vezes com a ajuda das fotografias de classe. Outros fixaram-se na minha lembrança por algum pormenor do seu caráter, da sua forma de ensinar ou da sua falta de jeito para a causa.
O monsieur Dauphin era o meu professor de desenho no colégio, em ano que corresponderia ao 5º ou 6º no nosso atual segundo ciclo do ensino básico. Lembro-me dele com barba, boina preta e cachimbo na boca. Numa época em que o tabaco ainda não era mal visto, o monsieur Dauphin dava as suas aulas de cachimbo aceso do qual exalava um perfume doce que não mais esqueci. Abomino o cheiro do tabaco dos vulgares cigarros e mais ainda o cheiro dos charutos mas em nada me incomoda certo aroma do tabaco usado nos cachimbos. E a lembrança que tenho das aulas com o monsieur Dauphin é tão doce como o cheiro do tabaco que ele fumava. Sem contar que foi com o monsieur Dauphin que vivi o meu momento de glória artística.
Um dos trabalhos que desenvolvemos naquele ano foi criar uma proposta de pintura mural para as quatro paredes de uma das salas da escola. Todos desenhamos e pintámos no papel aquilo que imaginávamos ver representado naquela sala. Depois um dos trabalhos foi escolhido para realizar a obra. O meu. E não me vou esquecer do entusiasmo com que pusemos mãos à obra e transportámos para as paredes daquela sala de aula o meu desenho. Lembro-me que era essencialmente floral, com muito verde… quase uma selva.
Fosse pelo cheiro que se soltava do cachimbo ou pela felicidade de me sentir artista, eu haveria sempre de me lembrar do meu professor de desenho.
Uma rede social que promove o reencontro, pelo menos virtual, das pessoas que frequentaram a mesma escola fez com que me cruzasse há tempos com o meu antigo professor. O monsieur Dauphin é artista plástico, tem hoje 82 anos e continua a pintar. Descobri-lhe também o sítio internet.
Ainda usa uma boina preta.