segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Beijinhos de amor

Quem não sabe não nota. Mas eu sei que aquela pequena cicatriz está ali e vejo-a sempre que me olho ao espelho. Está ali no lado direito do lábio inferior. Está ali onde noto uma pequena saliência que ficou desde que cortei o lábio no canto da mesa de cabeceira. A bem dizer, já só a consigo ver quando estico a boca. Então percebo o leve traço esbranquiçado a marcar a diferença no carmim do lábio. Já tem uns 45 anos ou mais, esta cicatriz. Não consigo já situar o ano exato em que caí da cama e cortei o lábio no canto da mesa de cabeceira. Mas vejo com perfeição o quarto em que dormia quando isso aconteceu. Recordo nitidamente a posição da cama, de frente para a janela, e o colorido dos ladrilhos hidráulicos que atapetavam o quarto. Na verdade não me lembro da queda, nem da dor. Só me lembro de acordar de manhã com o sabor enjoativo do sangue na boca e o lábio inchado que assustou a minha mãe. Por isso me levou à vila, à farmácia. Fomos de camioneta. Na verdade não me lembro da viagem de ida. Só da viagem de volta. E de como vinha enjoada na camioneta. E de como fiquei aliviada quando chegou a nossa paragem e desci pela mão da minha mãe e caminhámos até casa sob o sol alto do meio-dia. Lembro-me que vestia um casaquinho de malha amarelo claro. Era um casaquinho de malha tricotado pela minha mãe e tenho a certeza que ela chamava ao ponto daquela malha “beijinhos de amor”.

domingo, 29 de janeiro de 2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Serenata desenhada


Há uma serenata de amor que toca no asfalto da rua. Foi composta e interpretada numa destas noites. Não sei qual. Porventura foi numa destas noites de luar. Foi grafitada para a Andreia. A Andreia deve morar no prédio ali da frente. Imagino-a a abrir a janela pela manhã, a olhar para a rua e a ver-se espelhada no alcatrão. O seu nome como um grito. O amor a falar-lhe inglês como num filme.

Pergunto-me se a Andreia corresponde àquele amor ou se finge que não se chama Andreia … para disfarçar junto dos vizinhos.


domingo, 22 de janeiro de 2012

Passeio de domingo (81)


Passeio noturno pela minha aldeia e mais uma vez antecipado. Vem parar ao domingo por empréstimo e tradição já que mais uma vez estou em viagem de fim de semana.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A vida é bela (3)

... quando recordo o sabor da infância numa goma de alcaçuz.


O homem do sobretudo preto

Vai um homem caminhando pelo passeio esquerdo da rua. Vejo-o de costas, lá à frente, enquanto circulo vagarosamente ao ritmo da fila que arranca na passagem a verde do semáforo. O homem que caminha tem um ar distinto. Veste um sobretudo preto e transporta na mão uma pequena pasta de papéis. Tem o cabelo branco e caminha, elegante. No momento em que passo por ele vejo-o sacudir a cabeça ligeiramente para o lado direito. Acabou de cuspir para o chão e ainda consigo ver a trajetória dos seus eflúvios espumosos. Pelo retrovisor verifico que continua o seu caminho com o mesmo porte respeitável.

E eu juro que só tomei café com leite ao pequeno-almoço.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Livros

... que pelos vistos também têm uma vida secreta.



....o que me faz pensar que tenho descurado os meus nestes últimos dias. Tenho pelo menos dois a suspirar por mim na mesa de cabeceira.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A tia Bia

Saio pelas as oito da manhã. Está um dia claro, de sol radiante, mas que ainda não teve tempo de aquecer. Calcei as luvas porque a esta hora ainda me morde um rasto frio da noite que há pouco saiu de cena. Poucos metros rodados e passo junto ao portão da tia Bia para vê-la, já em ação, varrendo o quintal. Tem 86 anos. Ou será 87 já? O lenço que tem amarrado à cabeça protege-a da aragem e emoldura-lhe o rosto que testemunha uma longa vida de duro trabalho no campo. Varre o quintal e não tarda irá ali em baixo, junto à horta, para preparar uns farelos às galinhas. Não se descuida nunca nesta tarefa diária de alimentar a bicharada. Se eu não tivesse que trabalhar, estaria provavelmente ainda no aconchego do quarto ou tomando sossegadamente um café com torradas e assistindo aos primeiros noticiários do dia. Mas a tia Bia não se deixa levar por “molenguices”. De manhã começa o dia.
Sigo caminho pensando que quando for grande quero ter a disposição da tia Bia.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Passeio de domingo (80)


Na capital, pelo Parque das Nações.
O passeio não é de hoje mas serve para dizer que estou por estas bandas e como vou chegar fora de horas a casa  resolvi agendá-lo para aqui antecipadamente.