Já eu abria a porta do carro
quando ouvi o homem dizer nas minhas costas, é uma boa máquina…. Olhei para trás, na dúvida. Não devia ser para
mim. Mas era. O homem olhava-me sorridente e confirmava com o queixo apontado
para o carro, é uma boa máquina, essa. A
minha filha tem um igual; o dela é de 2008. Então eu, meio encavacada, a
retribuir o sorriso, fui espreitar a matrícula para recordar o ano do carro,
coisa a que tão pouco ligo que nunca sei. Também é de 2008. E o homem rejubila, é igualzinho, a mesma cor e tudo. Enquanto
me sento e retiro a pala protetora do sol ainda lhe digo que o meu já tem ali
umas mazelas na tinta da porta do condutor. Que sim, o da filha também, mas é
coisa pouca e o que interessa é que é uma boa máquina. Enquanto fecho a porta e
aperto cinto, ele chama pelo cão que andava a passear e despede-se rumo a uma
das casas do passeio do lado oposto. Arranco e sigo para os meus vinte e cinco
quilómetros de trajeto diário para regressar a casa. Não sei se já teria visto por
ali anteriormente o meu interlocutor. É provável que sim. Afinal, o homem é meu
vizinho já que estaciono naquela rua quase todos os dias de manhã e só de lá
saio pela tarde. E, entre vizinhos, um
carro é tão bom tema de conversa quanto o é o estado do tempo.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
domingo, 1 de outubro de 2017
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Ercília
Naquele sábado de manhã, a menina
Ercília sorria embevecida relendo a mensagem que o senhor António lhe tinha
enviado através do Facebook. Cada palavra alinhada diante dos seus olhos era
para ela pura poesia. O senhor António sabia como desarmá-la e há muito que lhe
tinha anulado as defesas. Pedira-lhe amizade meio ano atrás e a mensagem que,
em simultâneo, lhe tinha enviado provocou-lhe tal efeito que acabou por
contrariar o princípio por ela estabelecido de apenas aceitar amizade de
pessoas que conhecia pessoalmente. A fotografia de perfil do senhor António ainda
lhe suscitou algumas dúvidas. Estava um tanto desfocada, o rosto na sombra,
difícil de perceber as feições. Mas isso pesou bem menos na sua decisão do que
o conteúdo da mensagem que, numa sábia escolha de palavras, tornou irrecusável
aquele início de relação. A amizade foi crescendo
alimentada pelos escritos do senhor António e a menina Ercília, que sempre fora
de uma extrema exigência para com os seus pretendentes, estava agora rendida
aos encantos literários das atualizações de estado daquele desconhecido.
Ao contrário dos anteriores candidatos
a emparceirar com a menina Ercília, este parecia-lhe não ter qualquer defeito.
Lembrava-se, por exemplo, do vizinho do rés do chão que havia pouco mais de um
ano lhe fizera a corte. Ela tinha-lhe refreado os avanços. O facto é que
embirrava solenemente com o hábito que o homem tinha de se pôr à janela assobiando
o Bolero de Ravel. Chegou a associar o
assobio do vizinho a um surto de urticária de que certa vez se viu acometida
tal era o tamanho da aversão que tinha à exibição musical do vizinho. Com toda
a certeza o senhor António não era de se pôr a assobiar à janela.
Concluiu a leitura das palavras
mágicas do senhor António e forçou-se a desligar o computador para sair de
casa. Precisava de passar no supermercado para as compras da semana. Desceu apressada
os dois lances de escadas que separavam a sua porta do átrio do prédio. Calhou o
vizinho do rés do chão estar naquele momento a recolher a publicidade que lhe
enchia a caixa de correio. Calhou também a menina Ercília olhar para dentro da
porta entreaberta do apartamento. Foi um olhar breve, tão breve que teve a
certeza de ter sido apenas uma ilusão aquilo de ver, na parede do hall de
entrada, um quadro igualzinho ao que senhor António tinha publicado dois dias
antes como imagem de capa do seu mural.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Calendário
Não dei pela chegada do outono. Alguns dias fora da rede e
escaparam-me todos os posts de boas vindas à nova estação. Cá fora, nem um
pingo de chuva. O sol ainda não esmoreceu e a mudança mais visível é a
diminuição dos turistas e o aumento dos indígenas, eu incluída, no regresso ao
trabalho.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Anemonia sulcata
Não posso dizer que não gosto do sítio que escolhi para
viver, porque gosto. Ora estou debaixo de água, ora estou ligeiramente fora
dela. Não há cá monotonia. Nestas quantas horas em que apanho sol também
aproveito para ver uma quantidade de seres estranhos que se movem sobre dois
tentáculos apenas. Muitos deles param junto a mim e alguns tocam-me. Não gosto do
seu sabor e são demasiado grandes para uma refeição. Por falar nisso, já podia
subir a maré, a ver se me chega aqui perto algum alimento de jeito.
Floripes
Conta-se que Floripes era uma
moura encantada que vagueava de noite pelas ruas estreitas de Olhão. Toda
vestida de branco, com longos cabelos louros, aparecia de madrugada aos
pescadores que, por receio, não chegavam a falar com ela. Porém, em tempos, um
desses pescadores ter-lhe-á perguntado quem era e porque aparecia assim. Ela
contou que tinha sido encantada pelo pai, um mouro, quando este teve que fugir
do Algarve. Disse também que para a desencantar alguém teria de seguir com ela
num barco, que ela própria orientaria, levando duas velas acesas até chegar ao
destino. Se chegasse ao local determinado com as velas acesas, ela perderia o
encanto e a pessoa ganharia uma fortuna. Se não chegasse a esse local com as
velas acesas, o barco afundaria, a pessoa morreria afogada e o encantamento
manter-se-ia. O pescador não aceitou a tarefa e que se saiba nenhum outro quis
correr o risco. Continua, por isso, encantada a moura Floripes.
A lenda da Floripes inspirou o
filme.
Fonte:
Trouxe para aqui esta lenda do Algarve,
para juntar às lendas que vários bloggers resolveram divulgar, convidando quem
gosta destas histórias a publicar uma também. Deixo o link para a lista das lendas já publicadas que a Afrodite criou e vai atualizando.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Selfie
Quando os amigos dela e os amigos
dele virem a fotografia nas redes sociais é seguro que vão lá colocar muitos
gostos, muitos corações, muitas emoções e que ficarão deslumbrados com a
paisagem, o enquadramento, a luminosidade, o cenário… Que o cenário é magnífico,
asseguro-vos eu. E ele e ela também. Belos e jovens. Olhei para eles quanto
tiravam a selfie. A selfie não, as selfies, porque aquilo foi para cima de quinze minutos de poses e
cliques. Nunca eu, nem – acredito - quem por acaso aqui me lê, imaginou o
trabalho que dá tirar uma selfie à
beira-mar. Ora atentem. Ele já se encontra com os pés na água enquanto ela vai
descendo o areal, ajeitando o telemóvel no selfie
stick. Com o equipamento pronto, ela sobe para as cavalitas dele. Potentes
cavalitas, diga-se, pois que aguentaram a moça durante a toda a sessão
fotográfica sem o mínimo desequilíbrio. Fora de água, dentro de água, de costas
para o mar, de costas para o areal, olhando para leste, olhando para oeste,
inclinando para um lado, inclinando para o outro, ela segurando os cabelos
longos e louros, ele fazendo V com os dedos da mão direita. Bem podia eu
desviar os olhos para qualquer outro motivo de interesse na praia que, no
regresso, lá estavam eles, sempre encavalitados, a experimentar outra
orientação dos corpos, uma agitação de braços, uma careta talvez. E eu a achar
aquilo inacreditável. Estava perante os verdadeiros profissionais da selfie, uma arte que nunca dominarei, para mal dos gostos, corações
e emoções que jamais poderei granjear.
domingo, 17 de setembro de 2017
Passeio de domingo (375)
Mais uma vez, o passeio não é propriamente de domingo. Mas, que hei de fazer se em férias todos os dias se parecem com ele e eu, hoje, fiquei com as voltas trocadas?
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