segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma boa máquina

Já eu abria a porta do carro quando ouvi o homem dizer nas minhas costas, é uma boa máquina…. Olhei para trás, na dúvida. Não devia ser para mim. Mas era. O homem olhava-me sorridente e confirmava com o queixo apontado para o carro, é uma boa máquina, essa. A minha filha tem um igual; o dela é de 2008. Então eu, meio encavacada, a retribuir o sorriso, fui espreitar a matrícula para recordar o ano do carro, coisa a que tão pouco ligo que nunca sei. Também é de 2008. E o homem rejubila, é igualzinho, a mesma cor e tudo. Enquanto me sento e retiro a pala protetora do sol ainda lhe digo que o meu já tem ali umas mazelas na tinta da porta do condutor. Que sim, o da filha também, mas é coisa pouca e o que interessa é que é uma boa máquina. Enquanto fecho a porta e aperto cinto, ele chama pelo cão que andava a passear e despede-se rumo a uma das casas do passeio do lado oposto. Arranco e sigo para os meus vinte e cinco quilómetros de trajeto diário para regressar a casa. Não sei se já teria visto por ali anteriormente o meu interlocutor. É provável que sim. Afinal, o homem é meu vizinho já que estaciono naquela rua quase todos os dias de manhã e só de lá saio pela tarde. E, entre vizinhos,  um carro é tão bom tema de conversa quanto o é o estado do tempo. 

domingo, 1 de outubro de 2017

Passeio de domingo (376)


Uma longa caminhada pelo parque ambiental de Vilamoura, ali, mais ou menos, nas traseiras da praia. 











sexta-feira, 29 de setembro de 2017

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ercília

Naquele sábado de manhã, a menina Ercília sorria embevecida relendo a mensagem que o senhor António lhe tinha enviado através do Facebook. Cada palavra alinhada diante dos seus olhos era para ela pura poesia. O senhor António sabia como desarmá-la e há muito que lhe tinha anulado as defesas. Pedira-lhe amizade meio ano atrás e a mensagem que, em simultâneo, lhe tinha enviado provocou-lhe tal efeito que acabou por contrariar o princípio por ela estabelecido de apenas aceitar amizade de pessoas que conhecia pessoalmente. A fotografia de perfil do senhor António ainda lhe suscitou algumas dúvidas. Estava um tanto desfocada, o rosto na sombra, difícil de perceber as feições. Mas isso pesou bem menos na sua decisão do que o conteúdo da mensagem que, numa sábia escolha de palavras, tornou irrecusável aquele início de relação. A amizade foi crescendo alimentada pelos escritos do senhor António e a menina Ercília, que sempre fora de uma extrema exigência para com os seus pretendentes, estava agora rendida aos encantos literários das atualizações de estado daquele desconhecido.

Ao contrário dos anteriores candidatos a emparceirar com a menina Ercília, este parecia-lhe não ter qualquer defeito. Lembrava-se, por exemplo, do vizinho do rés do chão que havia pouco mais de um ano lhe fizera a corte. Ela tinha-lhe refreado os avanços. O facto é que embirrava solenemente com o hábito que o homem tinha de se pôr à janela assobiando o Bolero de Ravel.  Chegou a associar o assobio do vizinho a um surto de urticária de que certa vez se viu acometida tal era o tamanho da aversão que tinha à exibição musical do vizinho. Com toda a certeza o senhor António não era de se pôr a assobiar à janela.

Concluiu a leitura das palavras mágicas do senhor António e forçou-se a desligar o computador para sair de casa. Precisava de passar no supermercado para as compras da semana. Desceu apressada os dois lances de escadas que separavam a sua porta do átrio do prédio. Calhou o vizinho do rés do chão estar naquele momento a recolher a publicidade que lhe enchia a caixa de correio. Calhou também a menina Ercília olhar para dentro da porta entreaberta do apartamento. Foi um olhar breve, tão breve que teve a certeza de ter sido apenas uma ilusão aquilo de ver, na parede do hall de entrada, um quadro igualzinho ao que senhor António tinha publicado dois dias antes como imagem de capa do seu mural.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Calendário

Não dei pela chegada do outono. Alguns dias fora da rede e escaparam-me todos os posts de boas vindas à nova estação. Cá fora, nem um pingo de chuva. O sol ainda não esmoreceu e a mudança mais visível é a diminuição dos turistas e o aumento dos indígenas, eu incluída, no regresso ao trabalho.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Anemonia sulcata



Não posso dizer que não gosto do sítio que escolhi para viver, porque gosto. Ora estou debaixo de água, ora estou ligeiramente fora dela. Não há cá monotonia. Nestas quantas horas em que apanho sol também aproveito para ver uma quantidade de seres estranhos que se movem sobre dois tentáculos apenas. Muitos deles param junto a mim e alguns tocam-me. Não gosto do seu sabor e são demasiado grandes para uma refeição. Por falar nisso, já podia subir a maré, a ver se me chega aqui perto algum alimento de jeito.

Floripes

Conta-se que Floripes era uma moura encantada que vagueava de noite pelas ruas estreitas de Olhão. Toda vestida de branco, com longos cabelos louros, aparecia de madrugada aos pescadores que, por receio, não chegavam a falar com ela. Porém, em tempos, um desses pescadores ter-lhe-á perguntado quem era e porque aparecia assim. Ela contou que tinha sido encantada pelo pai, um mouro, quando este teve que fugir do Algarve. Disse também que para a desencantar alguém teria de seguir com ela num barco, que ela própria orientaria, levando duas velas acesas até chegar ao destino. Se chegasse ao local determinado com as velas acesas, ela perderia o encanto e a pessoa ganharia uma fortuna. Se não chegasse a esse local com as velas acesas, o barco afundaria, a pessoa morreria afogada e o encantamento manter-se-ia. O pescador não aceitou a tarefa e que se saiba nenhum outro quis correr o risco. Continua, por isso, encantada a moura Floripes.

A lenda da Floripes inspirou o filme.

Fonte:


Trouxe para aqui esta lenda do Algarve, para juntar às lendas que vários bloggers resolveram divulgar, convidando quem gosta destas histórias a publicar uma também. Deixo o link para a lista  das lendas já publicadas que a Afrodite criou e vai atualizando.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Selfie

Quando os amigos dela e os amigos dele virem a fotografia nas redes sociais é seguro que vão lá colocar muitos gostos, muitos corações, muitas emoções e que ficarão deslumbrados com a paisagem, o enquadramento, a luminosidade, o cenário… Que o cenário é magnífico, asseguro-vos eu. E ele e ela também. Belos e jovens. Olhei para eles quanto tiravam a selfie. A selfie não, as selfies, porque aquilo foi para cima de quinze minutos de poses e cliques. Nunca eu, nem – acredito - quem por acaso aqui me lê, imaginou o trabalho que dá tirar uma selfie à beira-mar. Ora atentem. Ele já se encontra com os pés na água enquanto ela vai descendo o areal, ajeitando o telemóvel no selfie stick. Com o equipamento pronto, ela sobe para as cavalitas dele. Potentes cavalitas, diga-se, pois que aguentaram a moça durante a toda a sessão fotográfica sem o mínimo desequilíbrio. Fora de água, dentro de água, de costas para o mar, de costas para o areal, olhando para leste, olhando para oeste, inclinando para um lado, inclinando para o outro, ela segurando os cabelos longos e louros, ele fazendo V com os dedos da mão direita. Bem podia eu desviar os olhos para qualquer outro motivo de interesse na praia que, no regresso, lá estavam eles, sempre encavalitados, a experimentar outra orientação dos corpos, uma agitação de braços, uma careta talvez. E eu a achar aquilo inacreditável. Estava perante os verdadeiros profissionais da selfie, uma arte que  nunca dominarei, para mal dos gostos, corações e emoções que jamais poderei granjear.

domingo, 17 de setembro de 2017

Passeio de domingo (375)


Mais uma vez, o passeio não é propriamente de domingo. Mas, que hei de fazer se em férias todos os dias se  parecem com ele e eu, hoje, fiquei com as voltas trocadas?