sábado, 12 de novembro de 2016

Sonhos

Nos dias em que lhe faltavam horizontes, a mulher sentava-se numa cadeira, à porta de casa. Colocava as mãos sobre os joelhos, de palmas viradas para cima e, olhando bem, invariavelmente via escaparem-se por entre os dedos sonhos antigos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Tenho um coração de manteiga



Esta noite

A casa está em silêncio. Desliguei tudo. Não há música, não há notícias, não há comentários, não há debates, não há filmes, não há séries. Lá fora soa uma coruja. Úuú. Úuú. Outra mais ao longe responde-lhe. Úuú.Úuú. A primeira está muito perto. Ouço-a como se ali ao abrir da porta da varanda. Apago a luz antes de a entreabrir, muito devagar, centímetro a centímetro, o corpo encolhido na escuridão da sala. Não a quero assustar. Estará no telhado? No candeeiro público? No cabo elétrico? No ramo da árvore? Estico um pouco o pescoço para fora da ombreira. Nada. Ainda ouço o úuú da outra, da que está mais ao longe. Ou será já a primeira, a que me desassossegou e me fez fazer esta figurinha tonta, espreitando a noite? Saio finalmente para a rua. Se ali esteve, já voou. No céu, atapetado de nuvens movediças, uma lua crescente acena para mim em jeito de consolo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A vida é bela (112)

... quando o arco-íris descansa um pouco, sentado no chão.


Baile de máscaras

Circulam pelos salões, eles com esvoaçantes capas, elas frufrus de rendas e leques. Pairam no ar seduções, misturam-se acordes de música e conversas segredadas. Entre uma dança e outra, uns quantos mudam a máscara e, de novo, se apresentam como se outros fossem. É vã sua ilusão. Trocam de personagem, mas de perfume não.  

domingo, 6 de novembro de 2016

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Contas simples

Está uma chuva mansa lá fora e há pouco fui ao quintal estender roupa debaixo do telheiro. Digo-te da chuva mas imagino que, também do teu lugar, a estás a ver. Deves até senti-la bem melhor que eu, nessa incorporação da natureza que gosto de imaginar que acontece. Enquanto desdobrava as camisas, as toalhas, o pijama, enquanto pegava nas molas, enquanto prendia cada peça de roupa, olhei para trás. Olhei e vi-te no tempo em que me contavas histórias de mim. Olhei e vi aquela história de brincar na praia e da euforia da construção de amizades. É fácil Mãe… Vês? Já arranjei uma amiga. E arrastava a Lili para as pequenas poças de água junto às rochas. Contavas-me dessa minha habilidade para ganhar amigos e foi essa memória mediada que hoje resgatei. Era fácil Mãe. Mas hoje, debaixo do telheiro, sob a chuva mansa, contas feitas, pesam mais os que perdi.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A história

O homem ouvia e mantinha-se calado. Quando lhe perguntaram se não tinha, pelo menos, uma história para contar, respondeu que sim, que tinha. E contou:

- Uma história.