sábado, 1 de outubro de 2016

Arte poética com música



De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l'Impair
Plus vague et plus soluble dans l'air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.

Il faut aussi que tu n'ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise :
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l'Indécis au Précis se joint.

C'est des beaux yeux derrière des voiles,
C'est le grand jour tremblant de midi,
C'est, par un ciel d'automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles !

Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la nuance !
Oh ! la nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor !

Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L'Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l'Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine !

Prends l'éloquence et tords-lui son cou !
Tu feras bien, en train d'énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l'on n'y veille, elle ira jusqu'où ?

O qui dira les torts de la Rime ?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d'un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime ?

De la musique encore et toujours !
Que ton vers soit la chose envolée
Qu'on sent qui fuit d'une âme en allée
Vers d'autres cieux à d'autres amours.

Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym...
Et tout le reste est littérature.

Paul Verlaine

Músicas por aí

Se hoje é dia de celebrar a música, começo por deixar aqui alguns caminhos para quem a costuma celebrar a cada post, ou quase.

Como a Maria Eu que não deixa um post sem música.
Como a Afrodite e o seu Smooth Latitude.
Como o Ricardo que a oferece profusamente.
Como o C.N.Gil que até a compõe e interpreta.
Como a Majo que ilustra sempre as suas publicações com sonoridades.
Como a Fê Blue Bird em e o seu espaço onde nunca falta a música.


Muitos mais do que estes o farão, mas estes estão entre os que me acompanham por aqui e eu a eles.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Juntos

Hoje caminhámos juntos.

Não sei se deste conta de como andámos. Eu a par de ti. Tu a par de mim. Pergunto-me se terás percebido, como eu percebi, que o ar circulava sereno pelos interstícios das horas. 
Confesso-te: gosto tanto de nos ver assim.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Acidente de percurso

Diz Vargas Llosa, em entrevista publicada na última edição da revista do Expresso, que todos os seres humanos deveriam planear a vida como se fossem viver eternamente. Afirma que, para vivermos em paz, devemos aproveitar a vida até ao final e organizá-la como se vivêssemos indefinidamente, para que a morte seja como um acidente.

Eu, que não sou ninguém, atrevo-me a dar-lhe razão. Agrada-me o pensamento de uma vida interminável. Pensar na morte como um acidente de percurso tem um lado absolutamente redentor que me faz sentir salva.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Caminhada

Caminho no mesmo caminho de sempre. Caminho na mesma hora de sempre. Ou quase. O corpo corta o mesmo vento de sempre. O chão, sob os meus passos, ressoa o mesmo som de sempre. Os cães latem e ladram nos mesmos quintais de sempre. Os grilos ensaiam a mesma cantilena de sempre. Como sempre um ou outro comboio passa. Como sempre ouço o aviso sonoro da cancela que fecha e que abre. Vejo as mesmas sombras de sempre nas folhas trémulas das árvores. À passagem pelas amendoeiras que carregam de flor na devida época, lembro-me sempre do bêbado caído junto ao muro que vi numa caminhada com as de sempre. Os cheiros da noite são os de sempre. Como sempre, o corpo aquece no movimento. Como sempre rola-me uma ou outra gota de suor pelo peito. Como sempre.

E vai crescendo uma melancolia que me envolve e me pesa. Acelero como quem precisa de se distanciar, de se soltar daquilo que nunca muda. Então, nesse preciso momento vejo-a. Em equilíbrio sobre o fio elétrico, iluminada pelo candeeiro público, vê-me também.  E observa-me do mesmo modo que a observo. Tal como eu viro a cabeça para trás para a manter mais uns segundos no meu campo de visão, ela vira a cabeça para o meu lado e acompanha-me no movimento. De olhos nos olhos, a coruja lança-me um feitiço e faço o resto do caminho, leve, sabendo que nunca nada é como sempre.

domingo, 25 de setembro de 2016

Passeio de domingo (324)


A volta deste domingo foi longa, andou pela serra e chegou a Alcoutim onde também há praia. Mas fluvial.









terça-feira, 20 de setembro de 2016

Um caso

Pela manhã, saí de casa com sol. O céu mostrava-se sem nuvens e assim esteve durante aproximadamente metade do meu percurso. Entretanto, comecei a avistar, ao longe, uma leve bruma que parecia querer enrolar-se nos raios solares. O horizonte cintilava num jogo de cores e texturas que despertou em mim uma forte curiosidade. À medida que eu avançava, adensava-se o nevoeiro até que o trânsito penetrou naquele corredor de humidade e deixei de poder observar o fenómeno brilhante que tanto me estava a cativar. Logo percebi que aquilo do nevoeiro era de propósito, só para não me deixar bisbilhotar o caso. Mas não me levam ao engano. Tenho a certeza que ali se deu um caso amoroso e que o que vi era um encontro secreto entre o final do verão e a primeira luz do outono.