quarta-feira, 30 de maio de 2012

Para grandes males, grandes remédios


Quero ver se tiro um bocadinho de tempo para visitar uma exposição sobre medicina popular no concelho de Faro que está patente no Museu Regional do Algarve até 17 de agosto. Estava visionando um pequeno vídeo sobre este evento, que se intitula “Para grandes males, grandes remédios” e lembrei-me que em miúda cheguei a tomar chá de fuligem para a constipação. Era a minha mãe que, seguindo a tradição, mo preparava. Chamava-lhe, em bom algarvio, chá da feluja. Não sei se era eficaz, mas algumas destas mezinhas resultam mesmo. Uma que até não há tanto tempo assim até me era recomendada pela pediatra dos meus filhos é o xarope de cenoura para a tosse.
Crenças à parte, acho interessante tudo aquilo que se refere a tradições populares.


terça-feira, 29 de maio de 2012

Isto não é um blogue de culinária...

…mas hoje quase me pareceu que sim graças a quem aqui chegou procurando por:

-bolinhos de coco

-doce de tomate

-chocolate

-promoção da gastronomia

-caracóis e cerveja

-bolachas

Espero que não se tenham sentido demasiado defraudados.

domingo, 27 de maio de 2012

Passeio de domingo (98)




Mais um passeio agendado previamente para um domingo em que não me vou aproximar do computador. Este não é no Algarve… e até combina porque hoje não estou no Algarve. Já reconheceram certamente o Buddha  Eden – Jardim da Paz,  no Bombarral.








sábado, 26 de maio de 2012

O dono da rua

Sempre que passo naquela rua e ultimamente passo lá com frequência, lá está aquele homem de cabelo grisalho e ar decadente observando quem passa, frente àquilo que deve ter sido em tempos uma loja e em cuja montra se amontoam trastes velhos e desbotados. Senta-se numa cadeira de jardim, com ripas de madeira e pés de metal, daquelas que se fecham para arrumar ao canto de uma qualquer arrecadação. O assento da cadeira já tem falta de uma das ripas de madeira mas isso parece não o incomodar. Instala-se logo pela manhã e fica observando o movimento da rua enquanto esfrega as coxas com as mãos repetindo com elas um movimento circular sem fim.

Quando, pela tarde, passo de novo por ali, o homem continua no seu posto. Por vezes está no passeio do lado de lá da rua, onde a essa hora já bate sombra.

Penso que passa ali o dia. Por vezes deve fazer algum intervalo na sua tarefa de observação da rua, dos carros e dos passantes. Nesses momentos fica só a cadeira de ripas de madeira e pés de metal, pousada junto à tal loja de trastes velhos e desbotados.

Também já o vi entrando e saindo de uma casa velha com porta para a mesma rua, apenas a alguns metros de distância do poiso da cadeira. Nunca o vi conversando com algum vizinho. Apenas observa a rua e esfrega as coxas com rápidos movimentos circulares das mãos. Atrás de si, as paredes decrépitas daquilo que em tempos deve ter sido uma loja ostentam flores de plástico que perderam a cor e pequenos bonecos de peluche também já muito pálidos e sujos. O homem mantém-se ali , no seu posto, observando, como se fosse o dono da rua e tivesse que velar pelo que nela se passa. Assim, sempre, dia após dia.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Infanticidas


Concluí que os pardais que ocuparam o meu telheiro só podem ser infanticidas. Vai-não-vai deparo-me com alguns dos seus filhotes recém-nascidos caídos chão, já sem vida. Ainda não têm ar de que tivessem tentado levantar voo - nem  penas têm -  e os seus cadáveres aparecem largados já fora de alcance do telheiro. 

domingo, 20 de maio de 2012

Passeio de domingo (97)


Foi um passeio entre aguaceiros. Primeiro nas Fontes de Estombar, local onde tencionava demorar-me pela tarde fora. Veio a chuva e fugi. Passei por Silves para ver os ninhos das cegonhas com crias. Veio a chuva e fugi. Não sem antes apanhar uma monumental molha.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Onde é que está a chave do carro?

É sacramental. Absolutamente regular e sacramental. Chegado o momento de sair do escritório esta minha colega pega nos seus pertences e logo desata numa busca ansiosa pela chave do carro. Ai, não encontro a minha chave! Onde é que eu pus a chave do carro? E o telemóvel? Agora não tenho o telemóvel. Espera aí que eu não encontro a chave.

Acho que não se passa dia nenhum sem que se repita esta cena. Eu e as restantes colegas do setor rimo-nos dela. Divertimo-nos. Acho até que já não passamos bem se não assistirmos diariamente a este episódio.

Eu rio-me e gozo com ela. Mas confesso que, embora caladinha, vou descendo as escadas do edifício e vou espreitando, uma e outra vez, para dento das bolsas interiores da minha mala de mão para confirmar se trago bem comigo a chave do meu carro e o meu telemóvel. Às vezes, já na rua, a caminho do local de estacionamento, volto a verificar… nem que seja só às apalpadelas.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

No banco

Fui depositar um cheque. Soube-me bem entrar naquela dependência bancária onde o ar condicionado me aliviou da torreira do sol na hora de almoço.
O único cliente que se encontrava junto ao balcão estava de saída e logo chegou a minha vez. Era um balcão alto. A menina que estava a atender recebeu-me o cheque e tomou nota do número de conta que lhe indiquei. Em seguida martelou durante algum tempo as teclas do computador. Fez passar o cheque pelo dispositivo de leitura e comentou que devia haver algum erro. Ia verificar. Pousou o cheque e continuou martelando nas teclas do computador. Tão demorada estava a ser aquela escrita que comecei a estranhar e deixando de observar os folhetos de divulgação de serviços bancários que estavam ali num pequeno expositor olhei para a menina e para a sua atividade. Teclava intrepidamente no computador enquanto soletrava de mansinho o que escrevia … ou lia e esboçava um leve sorriso para o ecrã.

Não. Não podia ser. Estaria a menina num chat? Podia até ser uma intranet do banco e ela estar a trocar impressões meramente profissionais. Mas que eram impressões divertidas …lá isso eram.

Fez então uma pausa no teclado. Agarrou novamente o cheque e repetiu o procedimento inicial. Continuava a dar um erro. Pediu-me que verificasse o número de conta. Na verdade eu tinha-me enganado num dígito. A culpa do erro tinha sido minha. De imediato a coisa funcionou.

Mas ninguém me tira da cabeça que, enquanto me atendia, a menina esteve em amena e descarada cavaqueira com alguém que se encontrava no lado de lá do ecrã do seu computador.

As amantes do verão

A Manuela do blogue Turista Acidental e a Scarlet Red do blogue Le Cirque de Scarlet estão a organizar um passatempo blogueiro para quem se considere amante do verão e aceite responder diariamente, durante o mês de junho, em fotografia ou texto, ao desafio.

Diariamente… é muito forte para mim. Logo eu que não consigo ter dia nem hora certa para aqui estar. Mas a Manuela acabou por me convencer e lá me arrisquei a alinhar. A ver vamos se me aguento.

Até 27 de maio decorre a fase de inscrição de participantes em "As amantes do verão". Resta-nos saber quais vão ser os temas propostos. Em todo o caso, considerando as elevadas temperaturas que correm, bem posso dizer que o verão antecipou a sua graça e está de conluio com a Manuela e com a Scarlet Red nesta sua iniciativa.


Ffffffffffff.....

18h30. 
Chego a casa e o carro diz-me que estão 37º lá fora.
Fffffffffff......
Estou boa para me pôr de molho.

domingo, 13 de maio de 2012

Passeio de domingo (96)


Descuidei-me hoje com o passeio. Entre afazeres domésticos e petiscada de caracóis com os tios que vieram de visita não sobrou tempo. Não seja por isso. Deixo aqui um passeio recente que ficou de reserva para os imprevistos. Onde? Junto às  praias do Ancão e do Garrão.

sábado, 12 de maio de 2012

La cinquantaine



Porque gosto... e porque é este o "lugar" onde me encontro na escala da vida.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O avô


No texto “Testemunha” do livro “Abraço” José Luís Peixoto escreve que os seus avós eram uma lembrança emoldurada.
Assim também é o meu avô. Está emoldurado e pousado sobre a pequena consola que se encontra na entrada do meu quarto. A moldura, de latão dourado e envelhecido, embora comprada há apenas alguns anos, até tem o design art déco da época em que o retrato lhe foi tirado. É a única fotografia que temos do meu avô e a única que eu vi dele. Não sei se na família alguém tem outra. Desta todos os irmãos e irmãs da minha mãe têm uma reprodução que mandámos fazer em tempos. A fotografia original ficou na minha casa. É mais pequena do que as reproduções. É daquelas fotografias que antigamente se coloriam à mão. Assim, sobre a consola da entrada do meu quarto, está o meu avô em traje militar num cenário florido de jardim de estúdio. Apoia a mão direita numa cadeira enquanto a esquerda segura uma espada que, por sua vez, se apoia no chão. A mão que se apoia na espada calça uma luva branca cujo par está entalado no casaco da farda, junto aos bolsos que lhe assentam no peito.
Não conheci o meu avô. Ou se o conheci não tenho lembrança dele que ficasse dos três anos que faziam a minha idade quando ele morreu. Só tenho mesmo esta lembrança emoldurada de um garboso soldado junto a delicadas flores de cores pálidas.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Os últimos minutos do dia

Hoje ainda é de dia. Caminho para poente e já o sol se esconde atrás do horizonte. Hoje caminho sem agasalho. No céu nuvens de algodão refletem ouro. Os melros voam apressados de galho em galho. Por vezes rasando a terra. Ouço-lhes o chamamento. O deles e o de outras aves que não vejo e que não sei reconhecer pelo canto. Na linha de caminho de ferro passa um comboio. Não tarda outro. E outro. E outro ainda. Para cá. Para lá. Cruzaram numa estação próxima. Para cá. Para lá. Caminho e sinto o perfume de uma porção de madressilva que cobre a vedação de uma casa, rente à estrada. Os farrapos de nuvem transfiguram-se e ficam agora rosados. Chego ao fim da rua. Meia volta e caminho para leste. Caminho quando já se acenderam as luzes dos postes de iluminação pública. A cada um que passo, caminho sobre a minha sombra que cresce no asfalto Arrastam-se os últimos minutos do dia. Calaram-se as aves. Cantam os grilos. Por instantes são só eles. Até as rodas dos carros deram descanso à estrada nacional e calaram o ruído de fundo que eu já nem ouvia. Só por breves instantes.

domingo, 6 de maio de 2012

Paseio de domingo (95)


Mais um passeio de domingo agendado para colmatar a minha ausência de hoje. Em dia da mãe, estou de visita aos filhos e não vou nem chegar perto do computador. O domingo até já se habituou a isto e não se importa nada. Hoje respira a tranquilidade que se vive junto ao Almargem, no caminho que leva até à praia do Trafal ou do Loulé Velho.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A mulher que segurava uma caixa de madeira

A mulher estava ali de novo. O João tinha reparado nela pela primeira vez havia talvez umas duas semanas. Estava sentada num banco do jardim que ficava do outro lado da rua, mesmo em frente de casa. Provavelmente aquela mulher já devia frequentar o jardim há mais tempo. Mas só tinham passado duas semanas desde que o João a vira pela primeira vez. Costumava sair apressado para apanhar o autocarro, na paragem que se encontrava a cinquenta metros dali. Como ele, à mesma hora do dia, muitas pessoas aguardavam o autocarro que as levaria para o trabalho. A rua fervilhava de gente, de carros, de buzinas, de fumos… e do lado de lá da estrada, sentada no banco do jardim, estava aquela mulher. Imóvel, olhando fixamente para os prédios que se encontravam na sua frente, no lado da rua por onde João passava todos os dias. A mulher segurava uma pequena caixa. Era uma pequena caixa de madeira. Olhando para aquela mulher o João parecia conhecê-la de algum lugar. Esforçava a memória mas não conseguia perceber de onde. Já na paragem do autocarro, olhava para trás, para o lado o banco do jardim e para aquela mulher e concluía que a conhecia dali. Mais nada.

Ultimamente, também aos fins de semana, quando o João saía de casa, via ali a mulher. Imóvel, sempre sentada no mesmo banco do jardim, a mulher segurava uma pequena caixa de madeira. Por vezes levantava a cabeça e olhava para o lado do prédio onde o João morava. E logo olhava de novo para a caixa.

Havia cinco anos já que o João morava naquele prédio. Tinha-se mudado depois da morte do pai. Ali sempre estava mais próximo do emprego e de alguns amigos com quem partilhava esporadicamente saídas à noite. Tinha sido criado pelo pai e sempre tinha vivido com ele. Quando este morreu não suportou continuar na mesma casa. Vivia só mas gostava daquele lugar. O jardim, ali tão próximo, levava até ele os sons das brincadeiras das crianças que todos os dias usavam os baloiços e o canto das aves, logo pela manhã. A vida corria-lhe sem sobressaltos mas desde que reparara naquela mulher sentia-se inquieto. Não conseguia perceber porque razão isso sucedia mas dava por si a espreitar com certa frequência pela janela da sala, procurando com o olhar aquele banco de jardim onde a mulher costumava estar sentada.

Numa tarde de sábado, estava nas traseiras ocupado na rega das plantas que tinha na marquise, quando ouviu a sirene da ambulância. Terminou a sua tarefa e dirigiu-se à janela da sala como tantas vezes fazia. Olhando para o lado do jardim percebeu que os socorristas se afadigavam junto ao banco onde a mulher costumava estar sentada. Pouco depois a ambulância retomava a sua marcha e alguns transeuntes que assistiam ao socorro dispersaram. Parado, à janela, o João continuava a olhar para o banco do jardim, agora vazio. A fim de uns instantes avistou junto ao banco, quase por baixo dele, um pequeno volume. Esforçou o olhar e percebeu que devia ser a caixa de madeira que aquela mulher costumava segurar. Num impulso saiu de casa, atravessou a estrada e correu para aquele banco. Pegou na caixa. Sentou-se, tal qual aquela mulher costumava estar sentada. Sentia uma agitação no peito enquanto uma força maior lhe movia os dedos das mãos que, como autómatos, abriram a caixa de madeira. Lá dentro o João encontrou apenas uma velha fotografia. Trémulo pegou-lhe e viu-se, menino, ao colo de uma desconhecida.