quarta-feira, 28 de abril de 2010

Só eu sei porque gosto tanto do Algarve (3)


Porque há muitos testemunhos do tempo em que as gotas de água se divertiam nas montanhas russas.

Voltar a infância

As músicas, tal como os odores, passam pelas nossas vidas e ficam associadas a momentos, a imagens, a sensações, a histórias, que se diluem no tempo e ficam guardadas, adormecidas, bem no fundo desta caixinha de surpresas que é o nosso cérebro. Há-de haver um dia que despertam e então nos despertam as memórias. Às vezes nem conseguimos perceber o que é que faz clic cá dentro para nos lembrarmos delas. Hoje a memória trouxe-me de volta um bocadinho da minha infância e as cantigas de roda aprendidas na escola primária.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A vida secreta dos objectos - O computador

Ai … que se acabou o descanso.

Eu que consegui tirar um fim-de-semana prolongado, tive que voltar esta tarde ao meu posto. Bem sei que foram umas mini férias forçadas porque já andava a variar um bocado, mas bolas, um computador não é todo de ferro!
Certo… somos um bocado tinhosos e gostamos de umas manhosices… trocamos muitas vezes as voltas aqueles deditos que nos martelam o teclado liderados por cabecinhas pouco dadas aos nossos segredos.


Ora… dediquem-se mais a nossa causa. Tentem entender os nossos temores… que também os temos, com tanto vírus e maleitas afins que por aí florescem, sempre prontos a atacar.


Mas enfim, desta vez estava mesmo a precisar de um check up completo. Já mal conseguia arrancar, pôr-me de pé…vá. E depois eram erros atrás de erros que me infernizavam a vida. Ficava de tal modo bloqueado que às vezes já só me desligavam à bruta…directo na ficha. Ui… que dores!


Fizeram-me bem estes diazitos! Acho que me sinto como novo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cheirinhos da terra


na minha vizinhança...

Caminhadas

Caminho a passo lesto para cumprir o necessário exercício.

Caminho noite fora e absorvo o ar morno que confirma a estação. Caminho e ouço o som abafado dos meus passos de sapatilha pisando o asfalto e aqui ou ali um pouco de gravilha. Os grilos afinam vozes na vegetação das bermas. Adiante perfila-se a casa cor de terra, vedada por uma muralha de hera que esconde um exército de rãs. Coaxam à desgarrada agitando o silêncio da noite. Caminho.

Caminho monte acima forçando os músculos das pernas na inclinação acentuada da subida. Caminho a passo lesto para cumprir o necessário exercício e ouço com nitidez a minha respiração. Sopro.

O cão de guarda da casa que se avizinha ladra antecipando a minha passagem e contagia mais uma dezena ao redor. Prossigo a subida caminhando a passo lesto para cumprir o necessário exercício. Respiro e inspiro o doce aroma da flor de laranjeira que se solta daquela horta adormecida ao luar.

Caminho a passo lesto para cumprir o necessário exercício e sinto já pequenas gotas a deslizar-me pelo peito. A estrada agora desce. O meu corpo corta o ar levantando a leve brisa que me afasta o cabelo do rosto. Há mais grilos que ensaiam o seu concerto nocturno. A descida apressa-me o movimento. Caminho a passo lesto para cumprir o exercício e avisto ao longe as luzes litorais que perfilam o horizonte em semicírculo.

Em estrada plana, por fim, caminho e levo a minha sombra pela frente até que chego a meu portão.

Sinto-me leve de cansaço.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Não existem problemas sem solução

Quase todos os dias, ao fim da tarde, quando chego ao carro, tenho um quadradinho de papel pespegado no pára-brisas.

Pode ser um anúncio de um fabuloso emprego em part- time , pode ser a oferta de serviços de canalizador, pode ser a publicidade de uma carpintaria, mas o mais provável é que seja o flyer do Prof. Lamine, Grande Medium-Vidente para quem não há problemas sem solução, já que trata de todos com êxito, quer em consultas dadas pessoalmente quer à distância.

Na verdade, já tenho o carro cheio de papelinhos amarrotados com o anúncio do Prof. Lamine, que vou retirando do pára-brisas e acumulando nos arrumos junto ao manípulo das mudanças. Hoje, porém, tive uma surpresa. Avistei o papelinho, joguei-me a ele com a fúria de amarrotamento que a sua imagem automaticamente já me desperta … mas oh….novidade: hoje quem oferecia os seus poderes extraordinários era o Doutor Koita, espiritualista e cientista.
Outro nome, outra designação e até outro contacto telefónico. A morada é que é a mesma (deve ser um consultório em expansão) e a descrição de funções é tal-qualsita.

Eu sei… tenho que limpar o interior do meu carro.


domingo, 18 de abril de 2010

Ouriço-cacheiro



Hoje tive um encontro imediato com um ouriço-cacheiro. Estava constipado. A sério! Juro que o vi e ouvi espirrar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A vida secreta dos objectos - O copo de plástico



Enganaram-me.

Tinham-me dito que a vida era uma maravilha. Só festas e piqueniques. Os piqueniques haveriam de me levar a conhecer lugares de sonho, campos de flores, sombras de pinheiros mansos, vistas de cortar a respiração, cantos de aves, frescas águas correntes… e eu, docemente pousado sobre uma manta de xadrez, cheio de sumo de laranja ou talvez de cerveja, passaria a melhor das temporadas sendo bebericado.

As festas, com muitas crianças, seriam uma permanente alegria. Em ambientes ricamente decorados com balões coloridos, festões rendilhados, bandeirinhas de papel, lá estaria eu, ao lado de pratinhos de batatas fritas, sandes de pão de forma, gomas e rebuçados. E haveria de me encher de limonada e Coca-Cola, essas divertidas bebidas cheias de bolhinhas que me fariam cócegas no plástico.



Mas qual quê? Eu, último copo da resma que veio cá para casa, fui vendo sair os meus companheiros para todas essas funções de convívio e fui ficando, ficando e ficando, sempre fechado no armário à espera da próxima ocasião. Até que um dia, lá fui com uma série deles para uma festa de partilha e descobri a verdade.



Pode ser tudo muito bonito, muito divertido, muito fresco…. Mas acabada a função despedaçam-te e vais parar direitinho a um saco preto, cheio de detritos. Se estiveres em maré de sorte ainda podes ir parar a uma reciclagem e aí podes ter esperança de renascer na mesma ou noutra forma, como me explicou um dos que lá estavam também nesse dia e que afortunadamente já tinha passado pela experiência. Senão…nem queiras saber!



Consegui escapar ao uso, durante essa primeira saída. Voltei para o fundo do armário, onde me finjo de morto e rezo para que me esqueçam mesmo. Sempre me vou aguentando vivo e sossegado. O meu sonho era ser um copo de plástico, sim, mas daqueles reutilizáveis, coloridos, até com desenhos e que duram, duram….Isso é que havia de ser uma festa de piqueniques!





domingo, 11 de abril de 2010

A vida secreta dos objectos - A iogurteira SEB


Oh la la…mes amis! Non imaginom cóme estó content. Estó numa excitasson só !


Voltei a trabalhar. É mesmo, na noite passada voltei a fazer iogurtes. Eu que estava há tantos anos arredada da vida laboral voltei a sentir-me útil. Esquecida no armário da cozinha dela, dormitava dias e noites a fio. Mas ontem, qual não foi o meu espanto quando ela me foi buscar à prateleira de cima, me limpou cuidadosamente, lavou um por um os meus frascos de vidro e se pôs a bater um litro de leite com um iogurte natural. Depois encheu cuidadosamente cada um dos meus oito copinhos, colocou-me a tampa e….que maravilha, ligou-me à corrente.

Agora só espero que esta retoma seja mesmo a valer. Bem sei que hoje em dia a concorrência lá fora é grande. Segundo me contou o iogurte que se envolveu com o leite ontem à noite e enquanto juntos fermentávamos, as prateleiras dos supermercados apresentam quase diariamente novidades. Há naturais para todos os gostos: clássicos, cremosos, magros, açucarados, gregos…Os de sabores, então, nem se contam: de aromas, com pedaços, com doce, líquidos… E depois ainda há os biológicos, os de soja, os de leite de cabra….Bem não vai ser fácil manter-lhe a vontade de me utilizar.


Mas por enquanto estou cheia de esperança e dou graças à Internet…. e a esta mania dos blogues porque, segundo percebi, foi num destes que ela linka aí ao lado que ao ver uma iogurteira SEB igualzinha a mim, minha conterrânea e saída como eu das séries de fábrica dos anos 70, ela se lembrou de como seria interessante voltar a dar-me uso.


E cá estou, linda na minha cor laranja e design vintage, capaz de fazer inveja a qualquer iougurteirazinha do século XXI.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fragâncias fabulosas...

...ou de como as lides domésticas também se podem tornar poéticas, enchendo-nos a casa de frescas fragâncias e a memória de doces recordações.

É que o último lava-tudo que comprei, um tal de Ajax Fabuloso, é o de cheiro a flores de Primavera. E que flores de Primavera? O muguet, ou lírio do vale, também conhecido por flor da felicidade, que os franceses tradicionalmente oferecem no dia 1 de Maio. Oferecem e não só. Nesse dia é também tradição realizar passeios em família pela floresta, precisamente para apanhar o muguet. Pena que por terras lusas nunca o vi. De aparência delicada, as suas pequenas campânulas brancas exalam um perfume fresco e forte.

E hoje a minha casa cheira assim.




Imagem daqui

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ma vie

A conversa é como as cerejas, diz o povo, e o youtube também. Começo procurando um tema e acabo encontrando tantos outros que me fazem viajar no tempo e me viciam neste prazer das recordações.

terça-feira, 6 de abril de 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sabor da corrente


Corre leve e não profunda a ribeira de águas mansas.
Refresco nela o olhar, lavo-me de qualquer tristeza.

domingo, 4 de abril de 2010

A vida secreta dos objectos - A terrina azul



Dizem-me que as rugas que apresento – estas finas rachas que formam quase um puzzle e rendilham a minha superfície – me dão mais valor, comprovando a bela idade que já tenho.

Pode ser. Vá que eu encare a situação com optimismo e acredite mesmo que ainda possa vir a ter algum valor. Mesmo assim, há dias em que a tristeza me assalta e sei bem que não passo de uma fraca velharia. Então fico depressiva. E lamento a minha vida de única sobrevivente do serviço de jantar de faiança azul que se destacou no enxoval da M., há mais de cinquenta anos.

Durante muito tempo fui rainha da mesa onde, gloriosa, chegava fumegante de sopa quente que havia de ser repartida pelos meus primos direitos, os pratos fundos. Tanto eles como os pratos rasos foram sucessivamente desaparecendo. Eu acabei por ter mais sorte e não cheguei a partir-me. Salvo uma pequena falha que tenho no meu rebordo, fui-me aguentando. Até a M. desapareceu. Nunca mais a vi. Não que se tivesse partido. Simplesmente…partiu.

Mudei de casa. Fiquei com a L. que sempre gostou da minha cor azul e me mantém exposta na cozinha. Mas ando triste. Ai se ando…. Acho que são saudades de uma sopa bem quente!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Òcharias

Há tanto tempo que eu não ouvia a palavra òcharias... e hoje foi a minha tia B. que ma trouxe de volta.
Contava-me ela que tem andado com insónias. Já só consegue dormir se tomar um comprimido. E ontem à noite foi uma noite daquelas. Levou até às sete da manhã sem pregar olho. E quando finalmente conseguiu dormir um pouco foi só para sonhar e "ajuntar òcharias".
Lembrei-me que a minha mãe também usava muito este termo, querendo significar tralhas, coisas sem préstimo... A palavra é algarvia e terá significados distintos em distintas zonas desta região. Na verdade, depois de deixar a minha tia e com a palavra a bater-me na mente, fui a correr à estante em busca do meu "Dicionário do falar algarvio", compilado por Eduardo Brazão Gonçalves (1988), para ver se lá encontrava alguma òcharia. A referência que neste livro é feita à palavra indica um significado distinto daquele que eu lhe conhecia: vaidades. De acordo com esta fonte o termo terá sido observado pelo autor em Lagoa. Faz ainda referência a outro autor, Abel Viana, que nos seus "Subsídios para um vocabulário algarvio" (separata da Revista de Portugal, Lisboa, 1954) remete a origem do termo para ucharia = fartura; abundância.
E, sim... quando a minha mãe falava em òcharias... eram sempre muitas.

Férias da Páscoa


As noites são santas e cheiram a rosmaninho e alfazema, pisados pelos passos da procissão. Os dias são solarengos e embalados pelos ritmos calmos das águas da ria.